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Livro de Folha Solta
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Livro de Folha Solta

18-06-2018

Contar histórias utilizando a literatura infantil tem se tornado uma das práticas mais exercidas na sala de aula regular e, o livro se torna um importante instrumento no processo de valorização da leitura, da escrita e do desenvolvimento infantil. Porém, mesmo com a valorização da leitura e do livro, percebe-se algumas lacunas na abordagem dos mesmos em algumas situações específicas. Neste trabalho considero a importância dos contos e das histórias para as crianças de um modo geral, entretanto, destaco o valor da contação de histórias para as crianças doentes, em especial as oncológicas, apresentando uma experiência dentro dessa modalidade. Tal experiência consistiu na adaptação de um livro pertencente à literatura infantil que foi destacado e suas páginas se tornaram soltas. O objetivo central foi o de melhor atender as crianças que estão acamadas em leito hospitalar ou se submetendo a procedimentos clínicos, embora também possa ser utilizado junto às crianças com subvisão. Como resultado, verifico a facilitação da contação por meio de folhas soltas em cartazes plastificados e coloridos de acordo com o original e o esforço poupado pela criança para descobrir as figuras ou personagens da história. Adicionalmente, acredito que é um modo de valorizar e estimular habilidades que estão no momento prejudicadas, como ver e descobrir coisas, mesmo estando debilitada ou, às vezes, com a visão prejudicada decorrentes de seqüelas da doença ou por procedimentos médico-clínicos. Assim, a presença do livro infantil no ambiente hospitalar vem proporcionar oportunidade de a criança fantasiar, imaginar exercitando suas funções simbólicas que podem ser momentos agradáveis mesmo que o contexto seja adverso.


A prática educativa no recinto hospitalar vem ganhando espaço nos últimos tempos, exigindo que o voluntário esteja atento às diversas circunstâncias para poder oferecer um material significativo àquela criança que ele vai interagir pedagogicamente. O trabalho pedagógico pode ganhar diferentes formas de aplicação e de estratégias e são grandes os desafios do voluntário. Neste trabalho focalizo a modalidade de trabalho de contação de história. As crianças que têm a saúde debilitada já se encontram fragilizadas pela própria doença. Quando internadas a situação se agrava, pois ficam longe dos amigos, da família e da escola. A atividade de contar história, além de possibilitar a aprendizagem, pode atender algumas das necessidades afetivas como a atenção, a aceitação, o afeto e o toque. Segundo Fonseca (2003), "A dor, o medo, o mal-estar e a desconfiança são minimizados quando a criança tem a oportunidade de vivenciar a sala de aula do hospital".


Contação de história em ambiente hospitalar


O ato de contar histórias proporciona à criança um momento de relaxamento, de descontração e equilíbrio, promove o seu bem estar físico, emocional, intelectual e social, e cria condições favoráveis para que o seu sistema imunológico reaja, o que pode tornar sua recuperação mais fácil. Além disso, contar histórias em ambiente hospitalar tem um importante papel no que tange ao fazer pedagógico por vincular a criança às atividades escolares, uma vez que com frequência essas crianças se afastam da escola.


Segundo Abramovich (1994), “É através duma história que se pode descobrir outro lugar, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica...”.


A leitura de histórias é um momento em que a criança pode conhecer a forma de viver, pensar, agir e o universo de valores, costumes e comportamentos de outras culturas situadas em outros tempos e lugares que não o seu. A partir daí ela pode estabelecer relações com a sua forma de pensar e o modo de ser do grupo social ao qual pertence (...)”. (Brasil, 1998, v. 3, p.143).


A criança, ao ouvir histórias pode se identificar com um dos personagens, pode criar um símbolo e se colocar no lugar do outro. Esse movimento psíquico de transferir aspectos do objeto real ao objeto simbólico é muito importante ao desenvolvimento humano. Pode se constituir em elementos básicos ao desenvolvimento das funções simbólicas, tão importantes para a linguagem como para a aprendizagem de um modo geral.


Na teoria psicanalítica as histórias, notadamente os contos de fadas, têm um lugar importante. Para Freud (1976) as fantasias decorrentes podem se relacionar ao desejo da criança modificar a realidade a qual não lhe é satisfatória.


Entre os pontos “era uma vez” até “foram felizes para sempre” passando pelo terreno “de um lugar bem distante”, há falta de uma verdadeira noção de temporalidade porque a escuta se volta para o enredo, sempre mágico, segundo Bettelheim (1980), o conto representa a maior parte de nossos desejos, de nossas angústias e dos mecanismos gerais do funcionamento da nossa psique, por isso seu uso na educação de um modo geral revela-se precioso.


Desenvolvimento


No atendimento hospitalar, muitas vezes a criança está em seu leito, possuindo uma movimentação limitada ou até uma subvisão, surgindo desta situação a necessidade de adaptar o livro de história convencional para o livro de folhas soltas, num tamanho adequado que, ao ser contado, não alterasse a acomodação do aluno/paciente.


Foi, então, o momento de criar, recortar, ampliar, modificar, ou melhor, montar um novo livro com, figuras coloridas, todo colado em folhas soltas, com o cuidado especial de plastificá-lo para que se faça a higienização após cada utilização.  Os cartazes são numerados, de modo que podem ser depositados nos pés das camas do quarto, colocando-os em uma ordem sequencial conforme o desenrolar da história.


É comunicado aos pacientes que será chacoalhado um pompom ou tocado um sino a cada troca de folha, para que se atentem ao novo cenário.


O papel do voluntário é o de criar, de adaptar o material para as diferentes situações e essas considerações se aplicam às formas de contar histórias para as crianças. Quando se avalia que a ação pedagógica atinge seus objetivos e que se consegue satisfazer as necessidades da criança, o voluntário também se sente realizado e feliz, além de saber que momentos agradáveis foram vividos. O resultado obtido por tal prática será satisfatório, pois, cada cartaz apresentado proporciona um momento de novas surpresas. E ao final da história, espera se que as crianças participantes peçam para que seja contada a história outra vez.


O fato de apresentar a história em folhas soltas num cartaz e colorido com as mesmas cores do original favorece a criança uma vez que não há a necessidade de folhear o livro, ou de virá-lo para mostrar a figura à criança acamada. Um segundo ponto positivo da folha solta é poupar-lhe o esforço para descobrir, numa folha presa, as figuras ou personagens da história contada. Finalmente, é possível constatar que este é um modo de não tirar da criança, a ilusão de que é capaz de ver e de descobrir coisas, mesmo estando debilitada ou, às vezes, com a visão prejudicada pelos procedimentos médico-clínicos.


Nesta adaptação é possível enfatizar a vivencia da fantasia, uma aprendizagem significativa sobre a possibilidade de participar do mundo com satisfação, uma vez que, na condição de hospitalizadas, as crianças podem perder essa noção.


No caso específico dessas crianças, para o desenvolvimento de quaisquer atividades, se faz necessário levar em conta o seu estado físico, emocional, intelectual, ou melhor, é preciso senti-la. Faz-se necessária a descoberta de formas e momentos de intervir ou contar histórias, visto que deve ser observado o momento da criança, bem como o seu estado físico e emocional.


Se a história for contada numa brinquedoteca, pode-se fazer um círculo, colocando cada cartaz à frente de cada criança, virado para baixo. Nesse caso a criança é que vira o cartaz no momento anunciado. No final pede-se também um desenho que represente o que aprenderam naquele momento.


Pode-se planejar a adaptação de uma história de forma a contemplar também o aprofundamento do conhecimento formal em alguma área do saber, além de apenas ouvir e interpretar histórias.


Segundo Prieto (1997), “... contadores de histórias, fiquem sempre na lembrança daqueles que tiveram o grande prazer de ouvi-los.”, independente de onde estiverem.



Autora do projeto: Edilene Mendes (T1)

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